ai como eu quero falar francês
Eis que um francês passou a morar comigo. Ele não sabe que eu tô tentando aprender a falar francês tem quase dez anos.
Eu sou muito tímido pra abordar desconhecidos. Segui o caminho dos livros, tutoriais e duolingo, me iludindo de que isso ia preparar meu ouvido pras conversas cotidianas que eu sempre quis ter.
Mas eu já tive essas conversas. Ou pelo menos a oportunidade de ter elas. Eu já morei outras duas vezes com gente da frança.
Na primeira vez foi com uma francesa naturalizada brasileira, casada e divorciada aqui no Brasil e alocada provisoriamente no conjunto habitacional meio acortiçado no qual eu estava parando, onde fomos vizinhos de quarto por uns bons quarenta dias.
Trocamos algumas palavras na cozinha e eu já notei o sotaque puxado, e quase chutei um "tu não é daqui?" mas ela foi mais rápida e disse que la na france ela também cozinhava cogumelo (isso enquanto eu raspava as cracas da frigideira da casa e ela passava em direção a lavanderia).
Aconteceu que essa primeira francesa tinha assunto de mais e nós nos cruzamos muito pouco. As trocas rápidas, no café da manhã, eram objetivas. E em português.
O meu interesse na langue française foi pauta curta. Eu não encaixava direito as frases e ela tinha pressa em me entender.
Eu quis dizer os ovos. O preço dos ovos. Ele está bom no mercado.
(Le price des porra des oeufs, c'est bon aujourd'hui, caralho de língua que enrosca.)
A segunda vez foi com uma outra francesa, em outra casa. Essa era mais jovem e bronzeada. Moramos a um quarto de distância por um fim de verão e meio outono. Ela se vestia bem (pouco), pegava talheres nas gavetas mais baixas, andava com headphones gigantes e falava um inglês perfeito.
E a curiosidade que ela tinha do Brasil, matava no inglês mesmo.
Ela tinha um detalhe, era de poucos amigos. E eu queria muito falar francês. Mas pendeu pro lado dela, e eu segui tentando traduzir meu Les fleurs du mal por mais um tempo.
Eis que esse francês está morando comigo. O duolingo, os canais do YouTube, o dicionário, todos (agora abandonados) pavimentaram esse momento. Só me resta a cara de pau, o ouvido ruim pro inglês, um ça va?, um qu'avez-vous dit?, um bounjour quando faltar outra coisa.
Seja bem vindo meu francês, seja bom, me dê uma trela, que eu quero muito parler un peu.